A Expedição Transantártica Imperial: uma lição não só para os nossos projetos, como também para a vida

Você, por acaso, já sentiu-se derrotado em algum dos seus projetos? Já esteve em alguma situação na qual as alternativas de solução pareciam todas perdidas? Você e seu time já foram expostos à situações de extremo risco, onde tudo parecia incerto? Pois então saiba que o livro “Endurance, a lendária expedição de Shackleton à Antártida”, de Caroline Alexander, definitivamente conta uma história que deve permanecer para sempre em nossas mentes, a qual nos inspira para enfrentar com disciplina, coragem e liderança as difíceis situações que enfrentamos em nossos projetos profissionais e pessoais.

O livro conta história da Expedição Transantártica Imperial  de 1914, formada por homens que objetivavam efetuar a primeira travessia terrestre do continente Antártico, passando pelo polo Sul, liderada por Sir Ernest Shackleton, respeitado explorador polar de sua época, acompanhado de sua tripulação a bordo do navio Endurance. Na tentativa de alcançar a Antártida de barco para depois efetuar a travessia a pé do continente, a embarcação “Endurance” fica presa a uma banquisa de gelo. Posteriormente, a nau afunda devido, principalmente, a gradativos danos no casco do navio, efetuados pela pressão do gelo. Sir Ernest e sua tripulação, obviamente, abandonam o navio e acampam em placas de gelo flutuante. Por incrível que pareça, ficam assim por aproximadamente dois meses, até a placa de gelo onde estavam começar a se partir. Mesmo assim não se deram por vencidos. Estando as placas de gelo a rachar, a tripulação embarca nos botes salva-vidas remanescentes do já naufragado navio Endurance, e navegando durante cinco extenuantes dias no mar, conseguem desembarcar na Ilha Elephant. Perceba que, após ficarem 2 meses acampando no gelo, com alimentação precária e uma difícil pressão psicológica a ser enfrentada, ainda tiveram força, mental e física, para navegar 5 desafiadores dias em pleno mar. Porém a proeza não acaba por aí. Sendo esta ilha um local inóspito e afastado, Shackleton decide navegar até a Geórgia do Sul, por mais 1300 Km, pois lá havia uma estação baleeira onde pediria ajuda. Escolheu cinco companheiros para essa viagem e assim o fez a bordo de um barco salva vidas apelidado de “James Caird” (principal patrocinador da expedição), deixando o restante de seus homens na ilha Elephant. Consegue o fabuloso feito de alcançar a Geórgia do Sul, depois de ter enfrentado, com sua pequena equipe, uma grande tempestade e o mar revolto. Agora que Shackleton conseguiu chegar à Geórgia do Sul, a aventura acaba por aqui, certo? Errado! Sir Ernest e seus homens desembarcam ao sul da ilha, quando as estações baleeiras estavam, na verdade, ao norte do local. Shackleton tinha de escolher navegar mais uma vez até a outra porção do território, ou ir até lá a pé. Pescadores noruegueses já haviam, anteriormente, atravessado a ilha em esquis, mas ainda ninguém havia tentado a rota pretendida por Sir Ernest. Em mais um ato de bravura seu e de seus homens, Shackleton opta pela travessia de 51 Km a pé, deixando três integrantes à espera de seu retorno, e levando consigo somente dois homens. Após 36 horas de árdua caminhada em terreno montanhoso, o grupo alcança as estações baleeiras e iniciam, agora com ajuda, as operações de resgate. Estas operações duram cerca de 4 meses até salvar todos os membros da tripulação do Endurance (sim, isto é incrível, todos os tripulantes do Endurance sobreviveram).

O Aurora

Devemos também ressaltar aqui um fato pouco citado: além do Endurance,  liderado por Shackleton, Expedição Transantártica Imperial contava com o navio Aurora, responsável pela tarefa de instalar depósitos ao longo da rota planejada da expedição. Infelizmente este navio amargou a perda de seu líder Aeneas Mackintosh e mais dois homens, os quais, mesmo com a derradeira morte, cumpriram a cabo a tarefa pela qual foram designados na expedição. Por um infortúnio, o Aurora fora arrancado do ancoradouro onde estava durante uma tempestade, e apesar de terem perdido provisões e pessoal, Mackintosh e seu grupo instalaram os depósitos.  O navio, a deriva, foi parar na Nova Zelândia. Alguns autores afirmam que Shackleton obteve culpa parcial pela morte destes homens, por falhas de comunicação e planejamento durante a expedição. Estas falhas podem ser exploradas neste artigo do telegraph do Reino Unido: http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/antarctica/1451419/Shackletons-disastrous-leadership-caused-the-deaths-of-three-explorers.html. Mesmo assim. posteriormente, Shackleton iria até a Nova Zelândia e, a bordo do mesmo navio Aurora, agora reparado e sob o comando do capitão John King Davis, e ajudaria a resgatar os sobreviventes do grupo do Mar de Ross (membros sobreviventes do Aurora antes do mesmo ter ficado à deriva).

O que podemos aprender com o Endurance para os nossos projetos?

A expedição do Endurance poderia simplesmente representar um enorme fracasso de projeto na história das expedições à Antártida.  Fora, de fato, uma expedição notavelmente trágica e repleta de desastres. Porém, o fato do empreendimento não ter alcançado o seu objetivo quase nunca é lembrado. Ao invés disso, a história do Endurance é adotada como um exemplo de liderança, e abordada academicamente como estudo de caso em muitos cursos de diversas escolas de negócio. Acredito que isso se deve ao fato de que a expedição de Shackleton nos mostra os seguintes aspectos abaixo:

  • O time é tudo: Shackleton colocou, por muitas vezes, os membros de sua equipe acima de tudo. Duas simples passagens sobre a expedição evidenciam esta característica: forneceu, durante o frio congelante, suas luvas ao fotógrafo da expedição Frank Hurley, o que fez com que seus próprios dedos queimassem . Além disso, numa ocasião de extrema fome e refeições insuficientes, Shackleton fornece um de seus biscoitos da ração diária a Wild, sem que os demais percebessem. Wild, comovido, cita em seu diário: “não sei se alguém em todo o mundo será capaz de perceber quanta generosidade e quanta compaixão estavam presentes nesse gesto. Mas eu, por Deus, nunca hei de esquecer. Milhares de libras não poderiam pagar o preço daquele único biscoito”. Obviamente, pequenas nobres atitudes como estas fizeram florescer a força de vontade e confiança de seu time.
  • Otimismo inabalável: Sir Ernest era um otimista extremo. Nas mais críticas situações, nunca mencionava que algo daria errado e que tudo estaria perdido. Também julgava seus homens pelo grau de otimismo que apresentavam, a ponto de dizer certa vez: “o otimismo é a verdadeira coragem moral”.
  • Frieza e resiliência durante períodos de crise: é notável perceber a postura de Shackleton após o Endurance ser tragicamente tragado pelo mar, ficando em destroços. Macklin escreveu em seu diário: “Como sempre ocorre com ele, o que passou passou. Aquilo tinha ficado para trás, e precisávamos pensar no futuro… Sem emoção, melodrama ou nervosismo disse: ‘Perdemos o navio e a carga – agora vamos voltar para casa’”.
  • Desistir, jamais: Sir Ernest uma vez disse explicitamente “Jamais para mim a bandeira abaixada, jamais a última tentativa”. Seus esforços foram impressionantes, principalmente sua travessia a pé pela Geórgia do Sul.
  • Valorização da comunicação e atenção para as interações pessoais: na ocasião em que o Endurance ficou preso no gelo, Shackleton ordenou que a área de armazenagem abaixo do convés fosse desocupada e que lá fossem construídos cubículos. Além de ser uma parte protegida do navio contra o frio, que variava entre 10 a 30 graus negativos, cada cubículo neste lugar abrigava dois homens, evitando assim o isolamento dos membros do time, e estimulando a comunicação. Shackleton ficou na parte mais gelada do navio, mais uma vez, colocando seus homens em primeiro lugar. Durante a noite, havia sessões de música e canto entre toda a equipe, e às vezes Hurley, um dos membros da tripulação, fazia palestras ilustradas com projeção de dispositivos.
  • Hierarquia justa e presença do líder: Shackleton estava sempre disposto a misturar-se com o seu time. Raspou sua cabeça junto com todos e quando começavam a cantar, juntava-se a eles. Impregnava-os assim com uma atmosfera de segurança numa ocasião altamente aflitiva, estando sempre presente. Porém, mesmo assim, há relatos no livro de momentos em que Shackleton enfrenta cara a cara os indivíduos mais difíceis, com domínio da situação e firmeza, mantendo o controle das situações. Esta mescla, entre a firmeza e a flexibilidade, certamente é uma combinação bastante interessante. A autora Caroline Alexander cita: “estava ansioso, com muito a planejar e ponderar, mas não carecia de solidão e isolamento para para entregar-se às suas reflexões”.
  • Seleção do time para o perfil desejado: Shackleton sabia que uma expedição polar era dura. Muito dura. Por isso, selecionou o seu time observando o perfil pessoal de cada um. W. James foi surpreendido em sua primeira entrevista com Sir Ernest, o qual perguntou se ele sabia cantar. James era físico, de perfil acadêmico. Analisava também, cuidadosamente, o perfil de cada homem durante a expedição. Quando sua equipe teve de acampar no gelo após o Endurance afundar, Shackleton reuniu em sua própria barraca aqueles que, em sua opinião, não se misturavam direito com os demais.
  • Mentes ocupadas sempre com algo útil, disciplinadas e focadas: esta característica é bastante peculiar e se estende por grande parte da expedição, somente desaparecendo nas situações realmente extremas, onde o controle mental humano exige domínio total da mente através de um forte instinto de sobrevivência. Porém, em situações mais comuns, os membros da tripulação ocupavam o seu tempo sempre com algo útil e mentalmente estimulante. Caroline escreve que “Walter How e William Bakewell, ambos simples marinheiros sem graduação porém ávidos leitores, podiam ter certeza de que teriam a oportunidade de discutir sua leitura de livros que escolhiam na excelente biblioteca de bordo em conversas individuais com Sir Ernest Shackleton”. Certas rotinas eram estabelecidas, e a equipe sempre expressa bastante disciplina nos relatos de viagem, transparecendo uma atmosfera de ordem mesmo nos contextos caóticos.

Conclusão

Shackleton pode ter falhado em aspectos mais exatos de seu projeto. Como já mencionado, a expedição total obteve três baixas pelo Aurora e epsódios terríveis com sua tripulação no Endurance. Nem sempre o esforço é sinal de resultado. Há certamente ocasiões em que falhamos mesmo realizando esforços extremos, e isto pode ser muito frustrante.

Por outro lado, o líder de verdade é aquele que transforma o aparente fracasso e a pesada frustração em oportunidades de sucesso e crescimento. É exatamente o que aprendemos com Shackleton e toda a tripulação do Endurance. Lendas são feitas de verdades atemporais e lúcidas, as quais podem, inclusive, ser expressas pela incrível habilidade de não desistir jamais e acreditar numa saída.

 

 

 

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A Expedição Transantártica Imperial: uma lição não só para os nossos projetos, como também para a vida

Um comentário sobre “A Expedição Transantártica Imperial: uma lição não só para os nossos projetos, como também para a vida

  1. Luis Marcio Ayres disse:

    Excelentes explanações acima citadas. Todavia tive grande apreço pelo texto escrito pelo comandante Worsley, em seu diario, reportando-se à atravessia da Georgia do Sul: ” Quando o cansaço é tão grande quanto era o nosso, os nervos ficam à flor da pele e cada homem precisa se esforçar ao máximo para não irritar os demais. Durante a caminhada, tratávamos uns aos outros com bem mais consideração do que usávamos em circunstâncias normais. A etiqueta e os ‘bons modos’ nunca são observados com mais rigor do que por viajantes experimentados, quando se encontram em dificuldades.”

    Curtido por 1 pessoa

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